SABER E CONHECER

“Uma existência secular, na carne terrestre, representa período demasiadamente curto para aspirarmos à posição de cooperadores essencialmente divinos.”

(Ministra Veneranda).

“Se conhecêsseis estas as coisas as praticaríeis, mas como vós não as conheceis, vós não as praticais”.

Não nos ocorre a quem cabe a autoria desta frase, mas ela serve de esteio para um raciocínio de que entre saber e conhecer há uma distância.

O primeiro passo, sem dúvida, para que seja iniciado qualquer processo de transformação é informar-se de novos conceitos e valores que vão de encontro aos que estávamos acostumados, numa correlação entre os transitórios, que temos alimentado, e os permanentes, que desejamos conquistar plenamente um dia na jornada evolutiva.

Os valores permanentes, no campo moral, são os originários das Leis Naturais, oriundas do Criador.

Um pensamento grego do período pré-socrático afirma que “O ter é diferente do ser”.

A ideia vem ao encontro duma outra que traduz o mesmo princípio, qual seja, o de que a informação, por si só, não significa libertação, ou seja, o fato de já sabermos, intelectivamente, verdades sobre a vida, não significa que essas verdades já se encontram plenamente incorporadas ao nosso patrimônio íntimo e que se traduzam em atitudes, mas que, sim, estão em processo de integração paulatina e gradual ao nosso acervo permanente, uma vez que assim nos esforcemos no silêncio do nosso processo evolutivo, em meio a tentativas, erros e acertos em todos os departamentos da evolução.

Vejamos, por exemplo, esta questão 780 de O Livro dos Espíritos, que corrobora na mesma direção desse pensamento:

780. O progresso moral acompanha sempre o progresso intelectual?

“Decorre deste, mas nem sempre o segue imediatamente.”

Não se trata de advogar uma acomodação, justificar uma posição inerte, mas antes buscar a compreensão de que entre saber e conhecer, existe a realidade de que o cérebro absorve, mas o comportamento não segue, de imediato, o que a inteligência absorve, porque, além dos condicionamentos menos equilibrados que já trazemos desta existência, há séculos de história pessoal de cada um de nós, desconhecidos hoje do nosso consciente, mas que transparecem em atitudes e tendências que se manifestam ou não aos olhos que nos observam como também aos nossos, quando nos observamos.

São realidades criadas por nós mesmos, em que, muitas das vezes, não demos a merecida atenção, o merecido valor ao que importa realmente à evolução do Espírito, e nos aferramos à matéria e os jogos da transitoriedade das reencarnações, preocupados tão somente na satisfação do que sempre foi transitório, em prejuízo do que sempre foi permanente, sob quaisquer aspectos que temos ou tenhamos nos enganado, quando reencarnados.

E, para qualquer mudança, haverá de acontecer um autoencontro conosco mesmos, no exame do que nos falta conquistar, um dia, nesta caminhada já iniciada e que, não obstante, possam brilhar em nossos cérebros as luzes de um conhecimento de que já tínhamos notícias, mas que agora aparecem numa nova roupagem, numa nova perspectiva, e que entre o saber e conhecer, há a trajetória a ser encetada dia a dia, no corpo ou fora dele, até um dia já não só saibamos, mas também conheçamos.

Do Livro: Mais Reflexões.

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É DIFICIL

Quando inventariamos o acervo de nossas deficiências íntimas e miramos o vasto horizonte de evolução, desabafamos, quando não para com os que nos cercam, para conosco mesmo: é difícil.

Esquecemo-nos de que todo o trabalho de evolução, em quaisquer dos aspectos dela,  além de paulatino, gradual, também nos remete à substituição do que criamos dentro de nós ao longo de extenso tempo de caminhada nos arraiais e banquetes da ignorância, e no desprezo pelos valores imperecíveis da vida.

Nesta fase, bebíamos o licor dos enganos com requintado prazer, ainda que enganoso e enganados estávamos.

Embriagávamo-nos nestes festins de erro em que nos demoramos por séculos.

Agora, quando nos deparamos com verdades que nos chamam à mudança, e  no nosso cérebro fervilham as informações para nós aparentemente novas, mas que nos remetem a conhecimentos que nos ferem os ouvidos também há séculos, mas agora em nova roupagem e desdobramentos, enganamo-nos, mais uma vez, concluindo que poderemos, apressadamente, transformar estruturas seculares por nós mesmos criadas em nosso íntimo num átimo.

O que no chega como informação não se vai concretizar como transformação imediata, pois demandará tempo entre aprendizagem, reflexão, mudanças de valores e novas atitudes.

Não, não é difícil, nem tampouco impossível, mas não dispensa trabalho no tempo em todos os quadrantes da existência, no corpo e fora dele.

Ainda quando, enganosamente, idealizamo-nos, num sonho romântico íntimo, como criaturas já prontas, acabadas no bem, olvidamos o necessário levantamento das deficiências de que ainda somos portadores, cujo cultivo e existência devemos a nós mesmos, uma vez que integram o nosso acervo interior.

Sim, em muitos lances da existência negligenciamos ou desprezamos os valores imperecíveis e mergulhamo-nos, iludindo a nós mesmos, nos jogos da vida material, que sempre findava, aferrando-nos ao que sempre foi passageiro e sempre servirá de meio e não de finalidade para o Espírito imortal.

Devemos buscar olhar para nós e identificar o ponto em que nos encontramos com as deficiências que se nos fazem presentes, não para autodepreciar-nos, macerar-nos intimamente, mas apenas para saber em que ponto nós nos situamos e identificar a direção para a qual necessitamos direcionar os próprios passos.

Como também devemos reconhecer, sem jactância ou presunção, as discretas conquistas positivas de que todos já somos portadores, por mínimas que elas sejam, e nelas enxergar potenciais de mais crescimento delas.

E digamos a nós mesmos que é possível, sim, caminhar para frente, tal qual os que se situam à nossa frente já caminharam e volvem os passos, olhares e braços na nossa direção, buscando auxiliar-nos nas trilhas em que seus pés pisaram.

Do livro: Toda Reflexão

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INFORMAÇÃO E LIBERTAÇÃO

O

            A informação, por si só, não significa libertação.

            Não devemos, apressadamente, daí concluir que desprezamos ou subestimamos o valor da informação, pois ela pode representar o contato com conceitos e valores novos a serem, um dia, trazidos ao patrimônio íntimo nosso, transformando nossas atitudes, substituindo as menos equilibradas por atitudes mais equilibradas diante da vida e das pessoas.

            Afirmamos que ela pode representar o contato com conceitos e valores de utilidade, pois que também, entre nós, existem os conceitos menos felizes que só aproveitam ao erro e que redundam em prejuízo ao ser humano, em maior ou menor intensidade e extensão, atingindo um número mais ou menos elevado de criaturas humanas, a depender do poder de influência dos agentes responsáveis, nos mais variados departamentos da vida humana.

            E tanto podemos deixar-nos levar ou um outro tipo de conceito.

            No campo religioso, tomamos contato com verdades que dizem respeito a valores perenes, que não mudam, por serem da Lei Natural ou Divina, emanada pelo Criador que, por consequência, guardam relação direta com a fonte que os emanou.

            Ao tomarmos conhecimento dessas verdades, elas não se incorporam de chofre e de maneira integral ao nosso patrimônio, inicialmente elas fazem parte de nosso patrimônio intelectual, da nossa mente, mas ainda não se constituem em ações cotidianas integrais, realidade essa a ser integralizada no tempo, no corpo de carne e fora dele, no intervalo entre as várias reencarnações que ainda viveremos, e o progresso intelectual não significa progresso moral, mesmo que esse progresso intelectual refira-se ao conhecimento religioso, pois que ele, inicialmente,  é resultado da cerebração.

            Elas vão se integrando, aos poucos, paulatinamente, às nossas atitudes.

            Enganamo-nos todos se julgamos que, por sabermos, já somos o conhecimento que trazemos, tanto quanto quando assim pensamos em relação a nós mesmos ou aos outros que nos cercam, esquecemos que a esmagadora maioria dos Espíritos reencarnados na Terra integramos a Terceira Ordem da Escala Espírita (O Livro dos Espíritos, questões 100 a 113), cujas características são o predomínio da matéria sobre o espírito e a presença do egoísmo e os seus incontáveis filhos da mesma rama, entre eles o orgulho, a vaidade, dentre outros.

            A informação, ou conhecimento como comumente costumamos afirmar, que nos chega vai reclamar-nos reflexão constante sobre ela, sobre nós mesmos diante dela, numa análise imparcial, sem deixar-nos contaminar pelas armadilhas do ego, evitando a vitimização ou a revolta, situações em que nos afirmamos vítimas da vida, das circunstâncias, ou armamo-nos de sentimentos de revolta contra a vida, contra as pessoas, a sociedade, ou até mesmo o Criador.

            E essa reflexão refere-se ao autoconhecimento, chama-nos à autoaceitação, autocrítica, autoperdão, autoencontro conosco mesmo, buscando olhar no espelho a imagem refletida de como estamos e buscar as causas do que se apresentar como anfractuosidades, e buscar sanar esses quadros, a partir dum enfrentamento com o material que trazemos dentro de nós e que é criação nossa das várias experiências vivenciadas nas reencarnações passadas, como também nos intervalos entre elas, no mundo espiritual.

            Nesse trabalho íntimo e cotidiano, também evitaremos a conivência com os atos menos felizes nossos que analisamos, pois que é uma das armadilhas do ego querermos justificar essas situações menos felizes, transferindo a responsabilidade para os outros, entre os quais os pais, as circunstâncias da vida, os ambientes que frequentamos, a sociedade, ou quem quer seja, além de nós mesmos.

            Tudo e criação nossa que carregamos conosco e fruto da nossa ignorância (desconhecimento).

                                                                       O LIVRO DOS ESPÍRITOS

120. Todos os Espíritos passam pela fieira do mal para chegar ao bem?

“Pela fieira do mal, não; pela fieira da ignorância.”

          E como o mal é tudo que está contrário à Lei Divina, ele ainda permanece em nós, em maior ou menor grau, num ou noutro aspecto da evolução espiritual, porque, ainda que saibamos, permanecemos ignorantes (desconhecedores) da verdade que não foi integralizada, pois que se assim não fora, já não praticaríamos as atitudes menos equilibradas, por pensamentos, atos e palavras, contrárias às Leis do Criador, nas mais diversas intensidades e realidades cotidianas.

          Conhecer é mais que apenas saber, pois que aquele que conhece pratica o que já sabe, e o que apenas sabe tenciona um dia praticar o que aprendeu ou está aprendendo, a informação de que vai tomando ciência.

          Daí porque retomamos o pensamento inicial, o de que a informação, por si só, não indica libertação, pois que há uma distância, por vezes mais ou menos longa, entre informar-se e transformar-se.

Do livro – Novas Reflexões.

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E O MÉDIUM?

Temos ciência de que as duas maiores dificuldades no Espiritismo prático são a obsessão e a identidade absoluta dos Espíritos.

                        A obsessão é caracterizada pela ação persistente de um Espírito sobre um encarnado, com o fito de dominar a sua mente, dirigir-lhe os passos, causando prejuízo.

                        Esta é a visão clássica da obsessão.

                        Ela pode dar-se de encarnado para encarnado, entre desencarnados, como também de encarnado para desencarnado.

                        O pensamento e a sintonia que se estabelece é a base do processo, quando ele se completa, uma vez que a influenciação corriqueira, comum no dia a dia, ainda não é a conclusão do processo, mas as atividades que são levadas a efeito e que podem redundar no desiderato menos feliz, uma vez aceitas as sugestões por parte do encarnado e  que são realizadas de maneira permanente, contínua pelo desencarnado.

                        O bem nunca se impõe, aconselha e, quando não é ouvido, afasta-se, o mal, ao contrário, busca impor-se e não se peja de valer-se de qualquer meio para lograr seus intentos, é o que acontece no mundo dos encarnados entre estes, e que continua dos desencarnados menos felizes para com os encarnados.

                        Quanto à identidade absoluta dos Espíritos, quando não se trata de uma comunicação de cunho particular a apreciação é puramente moral, devendo-se ater à análise da mensagem quanto à forma e ao fundo, pois não bastam apenas a correção na escrita, o estilo apurado, mas qual o teor que ela carrega em si, uma vez que existem inteligências ainda não moralizadas de todo ou mesmo não voltadas para  os objetivos éticos no mundo dos desencarnados, tanto quanto há entre nós, os encarnados.

                        O nome assinado na mensagem é sempre de menor importância, valendo mais o conteúdo do recado.

                        As considerações, quanto à análise, e que se referem à psicografia também valem para a psicofonia, e a mensagem falada e gravada que traz ao final o nome dum comunicante ou dar a entender aos encarnados presentes que se trata da uma entidade desencarnada já conhecida pelo seu modo de discursar, pelo seu estilo, essa mensagem é analisada da mesma forma que se faz quanto à psicografia.

                        Quando se trata de mensagem de algum ente querido desencarnado destinada a confortar os que ficaram e que se ligam a ele por laços de afeto, como também de consanguinidade, a certeza de que se trata realmente do nome assinado na mensagem assume uma outra característica no que tange à necessidade de apurar-se com rigor e obter-se um grau de certeza, pois que o texto serve de consolo e fortalecimento aos encarnados que ficaram, revigorando a crença na continuidade da vida e dos laços de afeto que não foram rompidos de maneira definitiva.

                        Um outro aspecto pertinente e muito peculiar, também, às comunicações mediúnicas é o animismo.

                        Toda comunicação mediúnica necessita de dois elementos, o Espírito comunicante e um médium encarnado, assim o médium atua como um filtro, um intérprete do material trazido do mundo espiritual e exerce um determinado grau de influência que pode ser maior ou menor, a depender de fatores vários como conhecimento, estudo, reflexão, características de personalidade, experiência no trato com o fenômeno mediúnico, entre outros tantos inúmeros fatores.

                        Quanto menos interfere na mensagem, tanto mais completa ela flui e, por consequência, menor grau de alteração sofre, pois o médium evita colocar suas ideias nas trazidas pelo ente desencarnado.

                        Se o encarnado tende a alterar o teor da mensagem, no todo ou em parte,  torna-se, desta forma, um mau intérprete, situação a que está sujeito todo e qualquer médium nalgum momento, por uma invigilância, todavia ele não pode alterar as ideias do Espírito que se comunica.

                        Se tratamos de analisar as mensagens mediúnicas que são recebidas, em função do teor que ela traz, independente do nome que assina, quanto aos médiuns, devemos ter os mesmos cuidados e atenção de análise, em relação aos encarnados que recebem estas mensagens, ou seja, não deixamos de analisar toda e qualquer comunicação de qualquer médium que seja, pondo de lado a hipótese de análise por tratar-se de tal ou qual pessoa, não importando argumentos comuns, como folha de serviços já prestados, o número de anos em que está na atividade, entre outros que o senso comum tende a criar.

                        E a razão é bem simples, objetiva e racional, e encontramos respaldo para ela em O Livro dos Médiuns, 226, 9ª questão.

                                                         9ª Qual o médium que se poderia qualificar de          perfeito?

“Perfeito, ah! bem sabes que a perfeição não existe na Terra, sem o que não estaríeis nela. Dize, portanto, bom médium e já é muito, por isso que eles são raros. Médium perfeito seria aquele contra o qual os maus Espíritos jamais ousassem, uma tentativa de enganá-lo. O melhor é aquele que, simpatizando somente com os bons Espíritos, tem sido o menos enganado.”

                        Observemos, com atenção que a resposta informa que o médium, simpatizando apenas com os bons Espíritos, foi menos enganado, ou seja, o médium que só simpatiza com os bons Espíritos está sujeito a ser enganado, a cometer erros, então, por consequência, não afastamos de análise qualquer obra oriunda da lavra de qualquer médium encarnado que seja, o que não é falta de respeito ou consideração pela pessoa humana, mas um dever de ofício, afastando, inclusive, os partidarismos, as preferências, porque a medida impõe-se, inclusive, como cautela, evitando que também nos enganemos, por desatenção.

Do livro: Novas Reflexões.

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JIGORO KANO – DIRETOR DE ESCOLA

O presente trabalho é feito com base na Obra The Father of Judo – A Biography of Jigoro Kano de Brian N. Watson.

            Jigoro Kano voltou ao Japão de sua primeira viagem em 16 de janeiro de 1891.

Aos trinta anos de idade, era o líder da Kodokan e de um crescente número de habilidosos alunos de Judô. Ele criou uma instituição acadêmica privada dele mesmo, a Kano Juku. Também retomou seu posto de ensino na Gakushuin e trouxe algumas práticas que havia observado na Europa, num esforço de elevar os padrões educacionais da instituição. Mais uma vez, Jigoro Kano era um homem muito ocupado.

            Em 1891, foi indicado para uma posição dentro do Ministério da Educação japonês, que exigia dele desistir do seu posto na Gakushuin. Em 07 de agosto do mesmo ano, casou-se com Sumako Takezoe, filha de Shinchoscha Takezoe, um notável estudioso da literatura chinesa clássica.

            No dia seguinte do casamento, foi oferecido a Jigoro Kano o posto de diretor na escola na cidade distante de Kumamoto, na ilha de Kyushu. Estimulado pelo seu grande interesse na educação, aceitou, deixando sua noiva em Tóquio.

            Os estudantes estavam eufóricos por saber que o novo diretor era o ilustre líder da Kodokan, pois havia considerável interesse em artes marciais em Kumamoto, e tanto alunos quanto professores aguardavam, com ansiedade, a chegada de Jigoro Kano, tendo um dos estudantes manifestado a sua expectativa de aprender Judô com Jigoro Kano, uma vez que as artes marciais era populares em Kumamoto.

            Soji, um estudante da Kodokan e natural de Kumamoto, havia acompanhado Jigoro Kano na viagem de Tóquio e, não obstante a sua juventude, era reconhecido pela sua grande força física.

            Antes de matricular-se na Kodokan, havia sido instrutor de Jujutsu Tenshin Shinyo no Dojô de Mestre Taro Handaya, em Osaka, onde suas façanhas eram lendárias.

            Ao chegar à estação de Kumamoto, Jigoro Kano comentou com Soji que já estava gostando do local e que se sentia feliz por estar lá.

Ele havia visitado uma vez um Dojô em Osaka, acompanhado de muitos alunos. Soji, que possuía interesse no Judô já de algum tempo, admirou as habilidades dos alunos da Kodokan, e experimentou essas habilidades em primeira mão, ao ser projetado por um dos menores e menos fortes alunos de Jigoro Kano e, imediatamente, se mudou para Tóquio, convidado para treinar Judô com Jigoro Kano.

Ele foi levado a Kumamoto, a fim de competir em lutas com mestres de Jujutsu locais – na prática Soji venceu todos e a reputação que estabeleceu pavimentou o caminho para estabelecimento de um ramo da Kodokan em Kumamoto.

Após haver chegado em Kumamoto, Jigoro Kano estranhou ao perceber que as escolas locais não eram equipadas com Dojôs, uma vez que a atenção que era dada em Kumamoto ao estudo das artes marciais, isto desde a era dos samurais.

Depois da mudança para a residência do diretor, fez uma limpeza na despensa, reforçou o chão com tatame e converteu a sala em um Dojô de Judô e, além disso, tinha também esteiras de tatame instaladas sobre o chão de pedras da sala de espera, transformando o ambiente num segundo Dojô.

A intenção de Jigoro Kano era divulgar o Judô da Kodokan em Kumamoto e atrair o interesse para a arte marcial, mesmo que não tivesse verba para manter o seu Dojô, contando com Soji para ajudar, juntamente com dois ou três outros alunos que treinaram na Kodokan, em Tóquio.

Enquanto isso os alunos da escola sob sua supervisão estavam com animado interesse pelo Judô, bem como satisfeitos por aprenderem Judô com o diretor, por quem tinha profundo respeito e, mesmo com poucos recursos e um Dojô pequeno, crescia o número de alunos e, mesmo assim, Jigoro Kano não havia ido a Kumamoto com o fim específico de promover o Judô da Kodokan na escola, ele o introduziu como um meio de ampliar o currículo.

Tinha em mente que era essencial excelentes professores para educar os estudantes e, como diretor, fez esforços continuados para conseguir os melhores disponíveis, tendo convidado o americano Lafcadio Hearn, que havia tornado o Japão a sua casa, para ensinar, e o convidado ficou muito impressionado com o Judô, vendo nele a verdadeira essência do Japão, não se constituindo apenas num meio de defesa pessoal, mas que também incorporava elementos da filosofia, economia e conduta moral.

Após conseguir professores experientes, fez algumas mudanças, tendo fechado o clube de remo, cujos membros haviam viajado a um distante lago para a prática, pois ele considerou que não era um modo eficiente dos estudantes realizarem o treino físico e, embora houvesse muitas queixas, muitos dos estudantes tinham confiança nos julgamentos de Jigoro Kano e aceitaram a decisão.

Como educador, Jigoro Kano sempre baseou suas ações no interesse dos estudantes e, quando o governo colocou a proposta de fechar a escola para conter custos, ficou ultrajado e, antes que a proposta pudesse ser aceita, organizou uma campanha para impedir a mudança proposta, demonstrando que mais escolas em vez de menos eram necessárias, solicitando a abertura de uma universidade em Kyushu e formação de educadores para lá ensinar, tendo conversado com os governos das prefeituras de Fukuoka e Kumamoto, obtendo a aprovação do desenho duma planta para uma universidade.

Em 1893, foi chamado a Tóquio, antes do progresso do projeto duma universidade, não obstante, em 1910, duas décadas mais tarde, a Universidade de Kyushu foi criada.

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JIGORO KANO – JUDÔ NO MAR

O presente trabalho é feito com base na Obra The Father of Judo – A Biography of Jigoro Kano de Brian N. Watson.

Jigoro Kano voltou a bordo do navio, lentamente cruzando o oceano Índico de volta ao Japão. Ele estava fora de sua cabine caminhando no convés quando encontrou um grupo de amigos passageiros, reunidos para olhar algo que ele não conseguia compreender de início. Aproximando-se, viu que dois homens com os quais havia escalado a pirâmide, o suíço e o alemão, pareciam ocupados em testar suas forças contra um musculoso oficial da Marinha.

            A situação parecia engraçada.

            O oficial, um russo, estava controlando uma extremidade duma vara de metal pesado, e os outros dois estavam realizando movimentos para mover o oficial, mas eles não conseguiam mover a vareta uma polegada que fosse. Todos os esforços para empurrar, puxar ou sacudir a vareta de sua posição estacionária não influíam sobre o objeto, suas forças combinadas não se equiparavam às do russo, que mantinha a barra fixa como se fosse uma rocha.

            O oficial russo orgulhava-se da sua assombrosa força e demonstrava aos outros a sua autossatisfação. Jigoro Kano estava ao lado de outro russo, um comerciante, que também a tudo observava.

            Jigoro Kano comentou com ele que o seu conterrâneo era muito forte, mas que poderia imobilizá-lo e que o oficial não seria capaz de escapar da sua imobilização.

            O comerciante russo riu ruidosamente e, balançando a cabeça, caminhou em direção ao musculoso oficial, contando-lhe a pretensão de Jigoro Kano.

            O oficial deu uma olhada em seu frágil desafiador e riu muito e, voltando-se para Jigoro Kano, desafiou-o para que tentasse a contenção pretendida.

            Para Jigoro Kano não havia perigo algum em perder o prestígio recém-adquirido diante de seus companheiros de viagem. O grupo juntou-se ao redor, ansioso por mais este evento.

            Alguém anunciou que era “Rússia versus Japão”, e mais alguém anunciou que era “O grande versus o pequeno”, fazendo com que todos os presentes rissem.

            À medida que caminhava para o centro do círculo de espectadores, Jigoro Kano concluiu que tinha de animar-se a si mesmo. O oficial russo postou-se de pé e, imponente pela sua altura ante o seu desafiador, olhou, de cima para baixo, Jigoro Kano. Então ele se deitou no convés e, Jigoro Kano, fez a sua imobilização. A um sinal dos outros passageiros, o russo começou a contorcer-se, tentando, com toda a sua força, empurrar ou sair da imobilização de Jigoro Kano.

            O oficial agora tentava desesperadamente escapar. Gemendo, ele empurrou a si mesmo para os limites máximos de sua força, mas não conseguia empurrar Jigoro Kano.

            Jigoro Kano, então, afirmou que era o bastante, então desfez a sua imobilização e levantou-se.

            O russo pôs-se de pé furiosamente, afirmando que agora era a sua vez, que Jigoro Kano deitasse e seria imobilizado. Jigoro Kano disse ser justo.

            Deitou-se sobre suas costas com as pernas ligeiramente separadas. O russo estendeu os braços largos para imobilizar Jigoro Kano, como um leão capturando um rato em suas patas. Alguém sinalizou o começo .

            Num átimo, Jigoro Kano escapou, empurrou o russo para cima de suas costas e prendeu-o, outra vez. Pareceu um esforço o movimento feito. Então, calmamente, pôs-se de pé. O russo ainda estava no chão de costas, respirando pesadamente.

            Ele se levantou lentamente, balançou sua mão fechada no rosto de Jigoro Kano, chamando-o de covarde, afirmando que ele fugiu antes que conseguisse a real imobilização. Jigoro Kano riu, afirmando que quando um oponente agarra a pessoa à força, deve-se esperar até que ela tenha uma forte possibilidade de segurar ou a pessoa tenta escapar? Justo antes de ele aplicar toda a sua força é hora de escapar, e isso foi o que ele fez, sendo este um princípio do Judô.

            O russo grunhiu, mas Jigoro Kano sorriu, dizendo que, apesar de tudo, ele permitiu que o seu oponente o segurasse no chão, escapando, contudo. E que esperar até um oponente aplicar bem a sua imobilização era contra os princípios do Judô.

            Alguém concluiu que a explanação fazia sentido.

            Completou Jigoro Kano que quando o oponente está atacando é hora de escapar, não quando ele está segurando em uma pegada efetiva.

            Alguém perguntou se poderia demonstrar algo mais sobre o Judô para eles.

            Jigoro Kano consentiu em demonstrar uma projeção, mas apenas uma, pedindo ao companheiro de viagem, o suíço, com quem havia escalado a pirâmide, para aproximar-se como fosse um oponente. Jigoro Kano rápida, mas gentilmente, demonstrou uma projeção nele.

            Os outros ficaram surpresos com a efetividade da técnica.

            O oficial russo pediu-lhe que tentasse a técnica nele. Jigoro Kano sabia que ele estava com raiva e não queria humilhá-lo, projetando-o.

            Jigoro Kano concordou, porém afirmando que fizessem uma disputa sem sentimento de rancor, não importando quem vencesse.

            O russo afirmou que para ele estava bem dessa maneira.

            Os espectadores prestaram a atenção quando o russo colocou seus braços enormes em torno de Jigoro Kano e prendeu as suas mãos.

            Exercendo uma força superior, num esforço em obrigar o homem menor para baixo, ele fez Jigoro Kano perder o equilíbrio uma ou duas vezes, mas não era capaz de derrubá-lo.

            Jigoro Kano estava, calmamente, esperando a sua vez. Como o russo tentou outro movimento, Jigoro Kano adiantou-se e equilibrou-se sobre o seu pé direito, simultaneamente, deslizando o pé esquerdo bem dentro do peito do pé do russo. Em seguida, ergueu os braços, enfiou seu cotovelo direito entre a axila do braço direito entre a axila do braço direito do russo, então puxou-o para si e projetou-o sobre a cabeça. Este era o clássico morote-seoe-nage, ou projeção sobre o ombro. O russo caiu no convés a uma curta distância.

            Os espectadores estava espantados. Todos queriam cumprimentar Jigoro Kano. O russo, que havia recuperado a compostura, estendeu a mão para Jigoro Kano, este o cumprimentou com cordialidade.

            O desafiante abandonou o convés.

            Aos poucos, com palavras de despedida e admiração e muitos cumprimentos de congratulação, os espectadores dispersaram-se. Um passageiro inglês demorou-se e, dirigindo-se a Jigoro Kano, disse-lhe que fora um gesto elegante da parte dele. Jigoro Kano não entendeu o motivo do comentário, indagando do passageiro sobre o assunto. O inglês, então, disse-lhe que, no momento em que Jigoro Kano projetou o russo, cuidou de proteger, com o seu braço, a cabeça do russo de sofrer um dano, informando que não sabia se os outros haviam notado, mas que ele sim e aquele fora um gesto esplêndido.

            Era verdade, a movimentação de Jigoro Kano protegeu o russo de ferir a sua cabeça no convés.

            Conversas sobre a demonstração de Judô logo se espalharam pelo navio, e Jigoro Kano tornou-se uma celebridade a bordo. Quando o navio finalmente atracou em Yokohama, a notícia espalhou-se rapidamente para os que estavam no cai. Descrições do fato foram publicadas em jornais japoneses, e o nome de Jigoro Kano tornou-se conhecido pelo país.

            Jigoro Kano disse que não era motivo de orgulho, que qualquer um que conhecesse um pouco de Judô teria realizado a projeção.

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JIGORO KANO – A PIRÂMIDE

O presente trabalho é feito com base na Obra The Father of Judo – A Biography of Jigoro Kano de Brian N. Watson.

            A Kodokan atraía alunos constantemente, e Jigoro Kano tinha, como resultado, mais aulas para ministrar em razão do interesse crescente pelo Judô.

            Tinha adquirido, também, novas responsabilidades na Gakushuin.

            Em 1885, um homem chamado de Tani Taketi tornou-se Diretor da Gakushuin e, reconhecendo o valor de Jigoro Kano para a instituição, promoveu-o a um posto administrativo em 1886. O sucessor de Tani Taketi, Keisuke Ohtori, ficou muito impressionado com as habilidades de Jigoro Kano e promoveu-o a professor titular.

            Gakushuin, que era conhecida como a Escola dos Nobres, estava sob a supervisão do Departamento da Casa Imperial, um braço do governo japonês que gerenciava os negócios do imperador e sua família e supervisionava, simultaneamente, os interesses na nobreza japonesa.

            O Departamento da Casa Imperial determinou que as crianças de linhagem nobre, bem como a descendência do imperador e a do prolongamento de sua família, deviam ser educadas na Gakushuin. Conforme o espírito nacionalista da época, os filhos da nobreza deviam tornar-se os pilares do estado e eram educados para tanto. As crianças dos cidadãos comuns eram tidas como carentes das qualidades que tornavam os nobres os melhores modelos de funcionários do estado, e, como efeito deste pensamento, somente os filhos da nobreza podiam matricular-se na Gakushuin.

            Jigoro Kano, de maneira resoluta, opunha-se a este pensamento e prática discriminatória. Defendia, de forma inflexível, a ideia de que não somente a nobreza, mas também os filhos dos cidadãos comuns deviam ser admitidos na Gakushuin, desde que se dedicassem e tivessem a habilidade do requisito acadêmico. Ao final, ele persuadiu o Sr. Ohtori a aceitar crianças não oriundas da linhagem nobre.

            Ohtori demitiu-se do cargo de diretor logo após a mudança da política. Jigoro Kano foi designado como diretor interino até que um permanente fosse encontrado. Por fim, Goro Miura, um oficial do exército, foi indicado para o posto de Diretor da Gakushuin. Na condição de militar, o novo diretor tinha suas próprias ideias sobre educação, sendo hostil à introdução de novas ideias e resistia com tenacidade às inovações de Jigoro Kano, incluindo a proposta de enviarem os melhores estudantes para fora do país, independente da condição social.

            Por fim, um dos alunos de Jigoro Kano recebeu a permissão do Departamento da Casa Imperial para estudar além-mar, mas quando estava se animando com o fato do estudante não ser nobre de nascimento, a permissão foi retirada. Jigoro Kano ficou desanimado, mas sabia que seria descabido protestar, uma vez que Miura favorecia a política discriminatória de só permitir os bem-nascidos estudarem fora do Japão.

            Não muito tempo depois, Miura chamou Jigoro Kano ao seu escritório e perguntou se gostaria de tirar uma licença para viajar para fora do país.

            Uns poucos anos antes, um dos professores de Jigoro Kano, na Universidade Imperial de Tóquio, havia sugerido a ele que realizasse uma pesquisa além-mar. Às vezes, Jigoro Kano sentia-se contente com a sua posição na Gakushuin e havia declinado, mas agora sentiu que a mudança seria bem vinda, pois não estava conseguindo ser bem sucedido com Miura em nenhuma causa.

            Depois que conseguiu alguém para assumir temporariamente suas obrigações na Kodokan, reservou então uma passagem para Europa no navio da linha regular Caledonian. Em pouco tempo, Jigoro Kano deixou o Japão pela primeira vez em sua vida, partindo do porto de Yokohama em 13 de setembro de 1889, em uma viagem de intercâmbio de um ano pelas instituições educacionais na Europa.

            A primeira viagem estava longe de ser a mais agradável das trinta além-mar que Jigoro Kano realizaria em toda sua vida. Ele ficou fascinado por quase tudo o que via e ouvia. O navio primeiro rumou para a China. Após uma curta parada em Shangai, partiu para o continente europeu, chegando muitos dias mais tarde na França.

            Jigoro Kano visitou Paris, viajando após para Londres, Estocolmo, Berlim e Amsterdã. Estava muito interessado nos métodos educacionais e escreveu muito sobre ambos: o sistema educacional público e privado, em cada país que conheceu.

            Em 30 de dezembro de 1890, cerca de um ano após a sua primeira chegada na França, Jigoro Kano embarcou em uma navio para Marselha, empreendendo a viagem de volta para casa. Ao longo do caminho, o navio parou no Egito. Jigoro Kano desceu em Alexandria e lá, junto com muitos companheiros de viagem, partiu em direção ao Cairo, de trem. Das janelas do trem, os viajantes podiam ver as pirâmides a distância.

            Jigoro Kano sugeriu aos demais que escalassem uma pirâmide. Seus companheiros, que representavam diversas nacionalidades europeias – britânica, francesa, alemã, austríaca e suíça – estavam, na maior parte, a favor da escalada; o austríaco, que era um pouco pesado, declinou.

            Jigoro Kano e outros quatro, acompanhados de guias contratados, viajaram pelo deserto, pretendendo escalar uma das muito elevadas pirâmides. O objeto de suas ambições, entretanto, que tinham escolhido de uma considerável distância, apresentou-se como terrível desafio, mais do que tinham esperado. Para escalá-la, teriam de empreender um trabalho em escadas gigantes.

            O guia egípcio explicou-lhes, então, ser impossível alguém sozinho escalar a pirâmide, mas que se dois acompanhassem cada um deles, a empreitada seria possível, e que cada um dos guias sustentaria um por baixo e o outro puxaria para cima, em cada nível.

            Antes do amanhecer do dia seguinte, os quatro escaladores encontraram-se com seus guias na base da pirâmide. Antes de pagar os guias, cada um escalador selecionou uma rota e começou a ardorosa ascensão até o topo.

            Eles não havia subido muito quando os guias começaram a queixar-se, reclamando que estavam exaustos, procurando extorquir um pequeno pagamento extra de seus contratantes. Jigoro Kano barganhou com seus guias: escalaria uma pirâmide com as suas próprias forças, e se precisasse da ajuda deles, ele lhes pagaria uma quantia extra. Os guias, que estavam certos que o pequeno Jigoro Kano presaria da ajuda deles logo, riram e concordaram. Olharam, contudo, espantados como Jigoro Kano procedia pra subir sem ajuda até o topo da pirâmide. Seus companheiros alcançaram o cume, mas não sem confiar fortemente em seus guias.

            No topo da pirâmide, os guias serviram água aos arquejantes escaladores. Os outros avidamente aceitaram, mesmo apesar de saber que seria uma carga extra de água, mas Jigoro Kano recusou, acostumado que estava a ficar sem água durante os treinos de Judô nos meses de verão. Ele não indiferente só à sede, não estava de todo cansado da escalada.

            Tendo todos vislumbrado um pôr do sol de tirar o fôlego, os escaladores desceram juntos. Quando estava lá em cima, Jigoro Kano não precisou da ajuda dos guias para descer.

            Eles retornaram em segurança à base da pirâmide e todos os outros que zelosamente repartiram o dinheiro extra que haviam concordado em pagar pela água e constante assistência dos guias. Jigoro Kano foi o único a alcançar o solo sem ajuda, e seus guias olharam-no firmemente com uma mistura de admiração e temor. Para surpresa deles, Jigoro Kano pegou sua carteira e deu uma gorjeta a cada um, ainda que embora não tivesse precisado da assistência deles. Grato por essa generosidade inesperada, curvaram-se para ele.

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JIGORO KANO – A ELEVAÇÃO DO JUDÔ À PROEMINÊNCIA

O presente trabalho é feito com base na Obra The Father of Judo – A Biography of Jigoro Kano de Brian N. Watson.

A ELEVAÇÃO DO JUDÔ À PROEMINÊNCIA

            Os alunos da Kodokan estavam jubilosos quando ouviram sobre o triunfo de Tsunejiro.

            Sakujiro Yokoyama e Katsutaro Yamada beberam no Dojô, o que era proibido pelas regras da Kodokan. Tinham consigo uma garrafa grande de saquê trazida por Yokoyama. Quando haviam esvaziado a garrafa, um barulho vindo dos aposentos do mestre, que ficava cinquenta metros de distância, foi percebido. Era Jigoro Kano, instituidor da regra banindo bebidas no local de treino.

            Os alunos, assustados, esconderam a garrafa vazia de saquê embaixo da cadeira de Jigoro Kano, este, ao entrar e, espantado por encontrar alunos ainda de pé, convidou-os, então, para uma conversa, sentando na sua cadeira, diante dos alunos assustados.

            “Antes da Era Meiji, muitos mestres de Jujutsu não ensinaram nada além do Kata. Mas eu estudei os estilos Tenshin Shinyo e Kito de Jujutsu, e ambos estilos incorporaram o Kata tão bem quanto o Handori. Se eu fosse comparar o Jujutsu a uma linguagem, então o Kata seria como estudar a gramática e o Handori seria a prática da escrita. Quando eu estabeleci a Kodokan, o Kata não era ensinado tanto, nós só nos associávamos ao Kata durante os intervalos do Handori”.

            “Entretanto, como o número de alunos cresceu, tornou-se mais difícil eu devotar suficiente atenção a cada aluno. Os alunos avançados gostam de trocar de parceiros durante o Handori e muitos deles tendem a negligenciar o Kata”.

            “Na prática do Kata, um retira-se quando atacado e então usa a própria força do oponente contra ele. Esta é a gentileza teórica do Judô, a rendição inicial antes da vitória final”.

            Os alunos preocupavam-se com a garrafa de saquê vazia embaixo da cadeira e a possibilidade dela ser descoberta.

            Jigoro Kano, entretanto, estava completamente preocupado com seus pensamentos sobre Kata. Por fim, ele se levantou, desejou-lhes boa noite e voltou para os seus aposentos.

            O Judô da Kodokan adquiriu uma reputação que estava espalhando-se rápido. Não obstante, o tradicional regime de treino do pessoal militar e para os oficiais da polícia era o Jujutsu. Alguém disse que o Jujutsu era superior ao Judô, enquanto outros reivindicavam que o contrário era a verdade. Cada lado possuía seus aliados, e a questão de qual era a mais efetiva disciplina tornou-se um debate polêmico.

            A controvérsia era especialmente significativa para a Agência Nacional de Polícia do Japão que exigia que seus oficiais treinassem a mais potente forma de arte marcial, a fim de prepará-los para lidar com situações perigosas de maneira eficaz.

            Os oficiais de polícia decidiram que a melhor maneira de determinar qual sistema – Judô ou Jujutsu – era melhor, foi combinar uma série de competições com os alunos das duas disciplinas rivais. Eles resolveram que cada lado seria representado por um time de quinze atletas.

            Quando Jigoro Kano ouviu sobre a competição proposta, percebeu que tudo pelo que havia trabalhado há anos agora estava em risco. A derrota poderia trazer a quase morte do Judô, apesar da arte estar na sua infância.

            Quatro dos mais antigos alunos de Jigoro Kano eram jovens de excepcional habilidade: Tsunejiro Tomita, Sakujiro Yokoyama, Yoshitsugu Yamashita e Shiro Saigo. Esses quatro eram conhecidos como os Shitenno, os Quatro Senhores do Céu, e todos tinham um lugar no time da Kodokan.

            Uma das muitas escolas de Jujutsu em existência, talvez a mais famosa era a Totsuka. Alguns dos principais mestres de Jujutsu da Academia de Polícia haviam praticado a prestigiosa Escola Totsuka, que era vista como o padrão de Jujutsu tradicional. O Judô da Kodokan constituiu-se em um desafio direto para o treinamento antigo de uma instituição como a Escola Totsuka, bem como a contenda pela predominância que estava em vigor na competição era entre o antigo e o novo.

            A competição teve lugar no Torneio Anual de Artes Marciais da Agência de Polícia, em 11 de junho de 1886, em Yaoyi Shrine, no Parque Shiba de Tóquio. Após tanta antecipação, a disputa tornou-se uma competição desequilibrada: o time da Kodokan venceu vinte lutas, perdeu duas e empatou uma. O combate mais comentado foi o de Shiro Saigo, que lutou contra um oponente maior e mais pesado que ele, derrubado com a sua famosa técnica Yama-Arashi. Noticias do triunfo da Kodokan espalharam-se pela nação e puseram um fim em questões sobre os méritos relativos ao Judô e ao Jujutsu.

            A Agência de Polícia incorporou o Judô ao seu programa de treino, e os membros da força policial passaram a praticá-lo. A Academia Naval também o adotou no seu currículo. A Kodokan espalhou-se, abrindo uma ramificação em Nirayama, na Prefeitura de Shizuoka. O Judô da Kodokan, gradativamente, tornou-se aceito de maneira geral como uma efetiva e benéfica forma de educação física.

            Um grande número de alunos do Jujutsu, talvez a maioria deles, ainda se recusava em ver os méritos do Judô da Kodokan.

            A evidente superioridade do Judô sobre o Jujutsu era principalmente o resultado do rigoroso regime de treino, a cuidadosa direção e instrução que o próprio Jigoro Kano geria, e o grande entusiasmo de seus alunos. Como o Judô estava aceito por mais e mais policiais, oficiais militares e lideranças educacionais, ramos do Dojô ensinando o Judô da Kodokan estavam gradativamente por toda a parte do país.

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JIGORO KANO – DAVI ENFRENTA GOLIAS

O presente trabalho é feito com base na Obra The Father of Judo – A Biography of Jigoro Kano de Brian N. Watson.

            No dia 28 de novembro de 1883, centenas de dignitários japoneses e convidados estrangeiros assistiam a uma cerimônia, marcando a abertura formal do novo prédio conhecimento como Rokumeikan, localizado no Distrito de Uchisaiwaicho, em Tóquio. O Rokumeikan, um imponente edifício projetado no estilo renascentista do ocidente, havia sido construído ao custo de cento e quarenta mil ienes, o que era uma quantia enorme à época.

            O fato dos donos realizarem uma grande despesa era como uma indicação do entusiasmo japonês para a assim chamada cultura ocidental. O projeto foi, em parte, um esforço do governo japonês em convencer as nações ocidentais que o Japão estava fazendo grandes progressos rumo à modernização. Líderes do governo pensavam que isso melhoraria a posição do Japão no cenário internacional e levaria à revisão duma série de tratados celebrados com o comércio internacional que eram considerados desfavoráveis ao Japão – tratados concluídos no começo da Era Meiji – quando o Japão ainda era totalmente considerado como uma nação atrasada.

            No outono de 1884, uma cerimônia marcava a abertura do novo Dojô em Tóquio da Escola de Jujutsu Tenshin Shinyo. Entre os convidados estavam quatro alunos da Kodokan, incluindo Tsunejiro Tomita. Suas presenças foram notadas com indisfarçável satisfação pelo maior homem do Dojô.

            Seu nome era Hansuke Nakamura, um homem que media quase dois metros de altura. Um célebre praticante do estilo de Jujutsu chamado Riyo Ishinto. Nakamura era um dos instrutores de Jujutsu que ajudava os treinos da força policial da cidade. Em uma recente sessão de luta, um dos seus colegas havia derrotado facilmente Shiro Saigo, o aluno número dois da Kodokan. Os instrutores da força policial no auditório tinham alguma expectativa de algum dos alunos de Jigoro Kano aparecer procurando por vingança. Além de ser fisicamente imponente, Nakamura estava decididamente agitado ao extremo, e embora fosse convidado do Dojô, não teve nenhum constrangimento em desafiar um dos alunos da Kodokan para uma competição.

            Tsunejiro foi tomado de surpresa. Hansuke Nakamura era bem conhecido, não só pelo seu tamanho, mas também pela sua força, e além de tudo, era um instrutor de Jujutsu da força policial. Seu rude desafio era a abertura para uma má combinação. Todavia, como ponto de honra, Tsunejiro não podia recusar.

            Tsunejiro saiu para vestir seu uniforme, retornou e caminhou diretamente para o centro do Dojô. Não somente as suas próprias habilidades estavam sendo colocadas à prova, mas a reputação da Kodokan também estava em risco. Essa poderia ser uma má combinação, mas se Tsunejiro sofresse uma derrota ingloriosa sob os olhares atentos de alguns dos principais especialistas de Jujutsu da época, o Judô da Kodokan e Jigoro Kano, juntamente, seriam desdenhosamente rejeitados.

            Nakamura assumiu o lugar oposto a Tsunejiro. Imediatamente o homem mais alto estendeu o braço e agarrou a lapela do oponente. Ao mesmo tempo, Tsunejiro deslizou seu pé entre as pernas de Nakamura e deixou-o cair em suas costas, simultaneamente esticando seus pés contra o estômago do desafiante, levantando-o e lançando-o para cima com os calcanhares virados para o ar.

            Nakamura ofegava quando seu físico imponente voou sobre Tsunejiro e caiu com um formidável baque a dois metros de distância.

            Tsunejiro havia acabado de aplicar a clássica versão do Tomoe-Nage, e a sua perfeita execução pegou todos no Dojô de surpresa. Os espectadores não podiam acreditar no que tinham visto. De fato, muitos segundos passaram-se antes que completamente apreciassem o que havia acontecido. Finalmente uma animação atrasada manifestou-se.

            Agora era a honra da força policial que estava em risco.

            Nakamura estava enrubescido e furioso quando saltou sobre seus pés e agarrou a manga esquerda de Tsunejiro com a sua mão direita. Ele empurrou Tsunejiro para trás com tremenda força. Tsunejiro não podia resistir, então ele escapuliu, mais uma vez rolando por sobre suas costas, enquanto colocava a sola de seu pé direito no estômago de seu oponente. Uma vez mais, o gigante voou com os calcanhares para cima e caiu pesadamente.

            Nakamura moveu-se de um salto sobre o seu pé e lançou-se em Tsunejiro com toda sua força. Tsunejiro reagiu com mais um lançamento para as suas costas e executando o Tomoe-Nage mais uma vez e pela terceira vez seu oponente fez um rude retorno ao chão.

            Nakamura mais uma vez colocou-se de pé.

            Nakamura agora estava num grande e súbito acesso de fúria, com a sua face branca de humilhação. Ele segurou a gola direita de Tsunejiro, cuidadosamente se guardando contra outra projeção no estômago. Tsunejiro tentou uma nova manobra, Morote-Seoe-Nage, mas rapidamente realizado ele não funcionava, ele mudou de tática, guardando seu momento de ataque, tentou o Oh-Uchi-Gari, mas Nakamura facilmente evitou o ataque. Tsunejiro mudou de tática mais uma vez, erguendo seu pé esquerdo, colocando-o no joelho direito de Nakamura, e puxando-o em sua direção. Este era o movimento chamado Hiza-Guruma, e funcionou. Nakamura caiu, e Tsunejiro aplicou-lhe um estrangulamento assim que foi ao chão.

            Nakamura virou-se e deu voltas desesperadamente, mas não podia esquivar-se do estrangulamento. Com o suprimento de sangue para seu cérebro cortado, ele logo perdeu a consciência. Tsunejiro havia ganhado, acabou.

            Um silêncio caiu sobre o Dojô, quebrado apenas quando o mestre do Dojô disse que a competição acabara. Lentamente, os eventos, que haviam acabado de desenrolar-se, começaram a calar no espírito dos presentes, e espectadores atordoados iniciaram cantos de louvores para Tsunejiro Tomita. Poucos podiam acreditar que ele apenas tinha vinte anos de idade, mas todos concordavam que o Judô da Kodokan era uma nova brilhante disciplina.

            Aquela noite, a notícia da decisiva vitória de Tsunejiro Tomita sobre Nakamura espalhou-se rapidamente pelos Dojôs deTóquio.

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JIGORO KANO – UM RIGOROSO REGIME DE TREINO

O presente trabalho é feito com base na Obra The Father of Judo – A Biography of Jigoro Kano de Brian N. Watson.

            As melhores ruas de Tóquio agora eram iluminas pela luz a gás, à noite, e homens de quimonos e vestidos à inglesa podiam ser vistos à frente de mulheres em suas saias longas com fitas em seus cabelos. Muitas estradas haviam sido calçadas pela primeira vez, e alguns prédios mais novos eram construídos de tijolos em lugar de madeira. Bondes puxados a cavalo rodavam ao longo das ruas, enquanto o povo da cidade, vestido em roupas curiosamente antiquadas, movia-se em grande número pela cidade em crescente quantidade. Tóquio estava rapidamente tornando-se uma metrópole agitada e uma cidade de contrastes chocantes.

            No coração de Tóquio, Jigoro Kano continuava a sua pesquisa. Ele colecionou livros de Jujutsu antigo, estudando-os cuidadosamente. Consultou livros de técnicas dinâmicas e estudadas cientificamente. Pretendia desenvolver um sistema criado em torno de uma arte marcial, mas dando ênfase também ao desenvolvimento físico, intelectual e moral.

            Resolveu que o Judô da Kodokan contaria com bastante agilidade, em lugar da força física. Também seriam incorporadas lições morais e intelectuais que poderiam ser aplicadas na vida diária.

            Com o passar do tempo, Jigoro Kano achou os alojamentos no terreno do templo cada vez mais inadequados. Num dia de calor, contou a Tsunejiro que estava esperando mudar-se para Kanda, próximo do centro de Tóquio.

            Tsunejiro argumentou que em Kanda não havia Dojô. Jigoro Kano disse-lhe que ainda não, mas que um amigo estava procurando por uma casa grande, que com ele pretendia compartilhar.

            Em fevereiro de 1883, a Kodokan mudou-se para Minami Jinbocho, no distrito de Kanda, em Tóquio. Jigoro Kano abriu uma escola de língua inglesa, a Kobunkan, na mesma localidade. Logo após, completou sua pesquisa e finalizou a sua metodologia para ensino do Judô. A Kodokan só possuía dez alunos, e era alojada numa sala relativamente pequena de dez esteiras. Não só havia o pequeno espaço, como também existiam pilares quadrados no Dojô que eram inconvenientes e, mais importante, eram um perigo para um imprudente. O chão do Dojô era sólido e as esteiras finas, os corpos eram projetados de forma dura na nova Kodokan. As condições estavam longe das ideais. Além disso, Jigoro Kano achou essa a primeira dificuldade para trazer convertidos ao Judô, que, além de tudo, estava na sua infância.

            Jigoro Kano estava muito preocupado que os alunos do Judô estivessem protegidos do risco de ferimentos. Insistia que um instrutor devia controlar os treinos práticos regulares para a comodidade do maior número possível de alunos. O Dojô estava, por esse motivo, aberto nos dias de semana das três da tarde até às sete da noite, e, aos domingos, das sete da manhã até o meio-dia. Tsunejiro Tomita e Shiro Saigo foram convencidos a estarem presentes à prática em dias alternados, assim sempre haveria um dos mais experientes alunos à mão.

            A Kodokan foi relocalizada outra vez, para o distrito próximo de Kojimachi, em Tóquio. Inicialmente, uma limitada sala de oito esteiras servia como novo Dojô, mais tarde um pilar foi removido, ampliando o espaço consideravelmente. Jigoro Kano permanecia recebendo instrução em Handori de Tsunetoshi Iikubo, que uniu suas forças às dele, a fim de ajudar o Dojô da Kodokan tornar-se mais bem estabelecido. Os alunos pareciam treinar mais diligentemente quando Tsunetoshi Iikubo estava presente.

            Mestre Iikubo ainda usualmente consegui extrair o melhor de Jigoro Kano quando os dois praticavam juntos, mas Jigoro Kano havia melhorado em grande parte. Mestre Iikubo estava impressionado, sabendo que Jigoro Kano estava trabalhando duro para aperfeiçoar suas técnicas de projeção.

            Todo dia, sem falta, Jigoro Kano praticava Handori com cada aluno que comparecesse ao Dojô. Sua intensidade e entusiasmo eram tantos que, se uma nova técnica lhe ocorresse no meio da noite, despertava um dos alunos e desciam até o Dojô para experimentá-la. Se estivesse descendo a rua e acontecesse de pensar em uma técnica original, pararia o Jinrikisha e experimentaria a  nova técnica com o desafortunado condutor na rua.

            Jigoro Kano consultou Mestre Iikubo acerca de técnicas para quebrar o equilíbrio do adversário. Graças ao conselho que recebeu, o uso dos pés e o movimento dos quadris para abalar o equilíbrio de um adversário tornou-se um traço especial do Judô da Kodokan.

            Mestre Iikubo estava surpreso com o número de técnicas que Jigoro Kano havia desenvolvido sozinho. Ele duvidava que houvesse mais o que pudesse adicionar ao repertório de Jigoro Kano. Logo, Mestre Iikubo concedeu a Jigoro Kano licença para ensinar o estilo Kito de Jujutsu e presenteou-o com documentos confidenciais, explicando a complexidade das técnicas do estilo Kito. Jigoro Kano assim se tornou um padrão do Kito Jujutsu tanto quanto um campeão da Kodokan. Muitas das projeções que Jigoro Kano adaptou para uso no Judô foram baseadas em técnicas do Kito Jujutsu, enquanto muitos movimentos de aprisionamento, chaves-de-braço e estrangulamento que ele usava foram baseados nas técnicas que aprendeu sob a tutela de Mestre Fukuda (estilo Tenshin Shinyo).

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