TORTURA

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
– E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!…

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
– E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento…

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
Florbela Espanca
Do livro: Antologia Poética

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ÓDIO?

Ódio por ele? Não… Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto…

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Como um soturno e enorme Campo Santo!

Ah! Nunca mais amá-lo é já bastante!
Quero senti-lo d’outra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!

Ódio em mim seria saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda.
Ódio por ele? Não… não vale a pena.

Florbela Espanca
Do livro: Antologia Poética

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SOBRE A DÚVIDA

Não crês, porque não vês. É a dúvida secreta
Que em vão te desafia:
– a sombra pode ver o corpo que a projeta,
Mas nunca a luz que a cria.

Guilherme de Almeida
Do livro: Meus Versos Mais Queridos.

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AINDA SOBRE A AMBIÇÃO

Num círculo vicioso, homem, todos os teus
Esforços se consomem:
O homem que quer ser rei, o rei que quer ser Deus,
E Deus que se faz homem!

Guilherme de Almeida
Do livro: Meus Versos Mais Queridos.

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SOBRE A AMBIÇÃO


De pó
Deus os fez
Mas ele, em vez
De se conformar,
Quis ser sol, e ser mar,
E ser céu… Ser tudo, enfim!
Mas nada pôde! E Foi assim
Que se pôs a chorar de furor…
Mas – ah! – foi sobre sua própria dor
Que as lágrimas tristes rolaram. E o pó,
Molhado, ficou sendo lodo – e lodo só

Guilherme de Almeida
Do livro: Meus Versos Mais Queridos.

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AS TRÊS COROAS

Na sala do museu,
As três coroas conversavam. Uma
A que era de ouro, disse às outras – “Eu
“fui de um rei. E curvei meu rei como uma pluma
“ao peso bom das minhas joias tutelares.
“Tive um reino aos meus pés, com soldados e teares,
“e torres brancas e altas como luas,
“e searas mais maduras,
“mais loiras do que o sol, e navios enormes
“como os templos de Deus e os palácios dos homens…
“Fui tudo: rica, poderosa, bela….
“Tive um rei aos meus pés e um céu sobre nós dois…
“Depois,
“pesei demais para a cabeça velha
“do meu rei – e caí.
“E puseram-me aqui!”

A segunda cora,
A de louros, falou: – “Nasci na Grécia.
“Eu fui o gesto verde que abençoa!
“E, inatingível como uma promessa,
“gesticulei na ponta
“viva do meu loureiro,
“chamando os poetas e os heróis do mundo inteiro.
“Junto a mim, sob a copa alta e redonda,
“eles cantaram e lutaram.
“estenderam-me os braços – e passaram!
“O amor passou também com frautas e com danças,
“com uvas nos chavelhos,
“ou com rosas nas tranças,
“oferecendo a boca e abrindo os joelhos,
“ou tatuando na pele do meu tronco
“a data de um encontro,
“a data de um adeus…
“E o amor ergueu também seus braços para os meus!
“Nem sei qual foi a mão
“que me colheu, porque logo murchei…”

Então
A terceira cora, a coroa de espinhos,
Disse às outras: – “Eu fui uma urze dos caminhos,
“Vivi só, sempre só,
“escondendo venenos sob o pó.
“Mas, um dia, enrolaram-me à cabeça
“de um homem que era branco como um louco,
“e belo, e bom como a tristeza,
“e puro como o fogo…
“E sofrendo, e sofrendo,
“ele morreu comigo. Então fiquei sabendo
“que eu valia tesouros e tesouros,
“mais que as coroas de ouro e as coroas de louro:
“- porque eu coroei os reis e os heróis, eu coroei
“todos os homens… E ainda não murchei!”

Guilherme de Almeida
Do livro: Meus Versos Mais Queridos.

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DESENCARNAÇÃO/REENCARNAÇÃO

Eis que um dia parto,
choram algumas vozes no quarto.
A consciência, semidesperta, confessa-se:
não sou herói de vitória alguma,
não trago comigo coisa nenhuma,
a pobreza de tudo me acompanha.
Perdi no mundo, talvez tenha perdido
neste estranho rumo a que a fatalidade me chama.
Quem me ampara no conforto de uma cama?
Dói-me reconhecer o meu muito pesar,
em ter de aceitar terei que analisar cada meu errar,
dói-me não ser esta a libertação desejada,
conquanto mais leve e de alma sossegada,
deverei retornar àquele escuro lugar.
Do livro: Versos Espíritas

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