BREVE EXAME DO MAL

O bem e o mal são dois temas que sempre tocaram muito de perto o pensamento filosófico e religioso.
O homem, a partir do momento em que se desenvolveu o pensamento abstrato e procurou explicações duma ordem metafísica, sempre procurou definir o mal, assim como explicar a sua presença nele e o no mundo, e, a partir do momento em que se desenvolveu na mente humana a ideia de uma Divindade universal totalmente boa, sem nenhum traço de maldade, à maneira do que ocorre entre nós, os homens, os dois conceitos antagônicos mais afirmaram, entre si, suas incompatibilidades.
Como realidade objetiva o mal ainda acontece na Terra, das mais variadas maneiras, formas e intensidades, seja entre os homens ou mesmo da própria criatura humana para consigo mesma, porque, em muitas ocasiões, quando pensamos estar fazendo um bem, estamos, na verdade, gerando males futuros para nós mesmos das mais variadas naturezas.
Raciocinamos, dentro da ótica espírita, pelo princípio básico da existência de Deus e Seus atributos, dentre dos limites que nossa inteligência consegue abarcar, no perímetro do nosso progresso intelectual, sem a presunção de que venhamos a trazer a ideia completa e acabada, pois que ainda nos resta longa estrada de progresso da inteligência a ser mais e mais lapidada, bem como também não menos longa é a estrada de progresso no campo moral, aperfeiçoando-nos como seres humanos.
Devemos buscar, nos nossos raciocínios acerca da Doutrina Espírita, a interpretação lógico-sistemática, analisando as conceitos a partir das ligações deles com os princípios básicos do Espiritismo, a partir da existência da Divindade e Seus atributos, constituindo-se as demais situações em consequências desses princípios básicos, em especial, o da existência de Deus, pois que, senão, poderemos tender a equívocos conceituais, a que todos ainda estamos sujeitos, sem exceção, não obstante o esforço a que todos devemos empenhar-nos.
Se mesmo realizando esforços nesse mister, não devemos julgar-nos imunes a uma conceição equivocada ou não tão acertada, pois que seria presunção da nossa parte pensar que não erramos ou erraremos, considerando que este tipo de comportamento nasce do orgulho e vaidade que nos rondam a personalidade ainda, e tanto mais difícil é se nem atentamos para a necessidade de considerar o erro como hipótese de realidade em nós.
Todos os atributos que o Criador possui estão elevados ao grau infinito, as virtudes e os sentimentos mais nobres, amor, sabedoria, paciência, justiça, misericórdia, afabilidade, doçura, compreensão, tudo que imaginarmos no terreno das virtudes, assim como também é onipotente, e neste prisma força nenhuma no universo pode se lhe opor, no sentido de poder igualar-se a Ele.
A par dos outros tantos atributos, também é um Pai que educa os Seus filhos, não cessando de corrigir seus caminhos, através da ação de Suas leis, que governam todas realidades do universo, materiais ou não.
Tudo está regulado por leis Divinas, desde o microcosmo ao macrocosmo.
As relações que os homens estabelecemos uns com os outros, a relação que temos conosco mesmo, com o nosso corpo, os nossos pensamentos, tudo, enfim, não escapa ao controle dessas leis infinitamente sábias.
O Espírito humano, no seu nascedouro, surge simples e ignorante, com todos os potenciais de perfeição que um dia irá alcançar, quando galgar a Primeira Ordem da Escala Espírita, e vai ensaiando as suas realidades evolutivas no corpo de carne e nos intervalos entre as reencarnações, desde a realidade primeira nos mundos primitivos, passando por mundos de expiações, e provas, mundos de regeneração, mundos felizes, e mundos celestes ou divinos.
As primeiras reencarnações dos Espíritos acontecem nos mundos primitivos trazem o panorama de maior proximidade com a vida primária, estando esses seres mais próximos do estado de irracionalidade, e o seu tempo, as energias, a inteligência do Espírito que estagia em planetas dessa ordem são gastos na sua sobrevivência diária e de seu grupo.
Nós já passamos por esse quadro de evolução, pois que, no nosso passado, também fomos homens primitivos, no período da Pré-História.
Os mundos progridem por meio do progresso das criaturas, tanto intelectual quanto moral, e, logo após a realidade de mundos primitivos, passa o Espírito humano à realidade de expiações e provas, no estágio posterior ao de mundo primitivo, aprimorando mais ainda a sua inteligência, lapidando o seu pensamento, realizando descobertas nos mais variados campos da atividade humana, nos mais diferentes campos do conhecimento.
Nesse último panorama de realidade planetária na qual estamos inseridos, vivenciando-a, individual e coletivamente, a característica do planeta é de predomínio do mal sobre o bem, o mal está maior proporção, entendido como ignorância, desconhecimento, presente a despeito mesmo do progresso da inteligência, assim como a predominância da matéria sobre o Espírito, presença do egoísmo, orgulho, vaidade e tantas outras deficiências presentes nas personalidades humanas que compomos o cenário da Terra.
E o que o Espiritismo tem a informar sobre o bem e o mal é:
– o bem é tudo que está de acordo com a Lei Divina, inscrita na consciência do homem.
– o mal é tudo que contraria, afasta-se da Lei Divina.
– para chegar ao bem, o Espírito não tem de passar pelo mal, mas pelo estado de ignorância (desconhecimento).
Percebemos que a presença do mal, entre os homens, e nas criaturas humanas que somos, transitando por expiações e provas, não terá duração permanente, não irá perdurar indefinidamente, pois que temos a possibilidade progredir intelectual e moralmente, lembrando que o progresso da inteligência ajuda no progresso moral, e seguiremos exercitando a inteligência e mudando nossos valores e condutas, que tenderão a ser mais equilibrados diante da Lei Divina, aproximando-se mais e mais dela.
O progresso que porventura sonhemos para nós hoje, em termos de superar esta fase por que passamos, que terá uma duração mais ou menos longa, variando de criatura a criatura, pelos esforços vai empreendendo de caminhar na direção de um estado maior harmonia interior com a Lei Divina inscrita na sua consciência, superando-se, esse progresso já foi alcançado por inúmeras outras individualidades na Terra e fora dela, algumas das quais passaram, passam e passarão entre nós, ajudando-nos a clarear a senda da evolução.
Percebemos, então, que o mal que nos ronda a personalidade e os passos nos nossos caminhos é um estado passageiro, por mais que perdure em nós e ao nosso redor, e que quando nos afligimos, esquecemo-nos de que são panoramas íntimos criados por nós mesmos ao longo desses séculos de realidades vividas no corpo de carne e fora, pois que podemos tanto evoluir quanto nos comprometer diante da Lei Divina também no mundo espiritual, e quiçá até mesmo realimentado este estado menos equilibrado também na presente reencarnação nalguns momentos e ocasiões em que temos sido testados, a fim de sermos provados, e que a mudança, conquanto gradual, lenta e sem violências será de nós para conosco mesmos.
Do livro: Novas Reflexões.

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A DESENCARNAÇÃO

A desencarnação marca o momento em que o Espírito vai abandonando, aos poucos, as ligações que mantém com o corpo carnal.
Ela varia de Espírito para Espírito, a depender do maior ou menor apego às mais variadas questões da vida física, e pode ser breve ou demorar um tempo considerável, podendo variar de minutos a anos, a depender da condição do ser que está desencarnando.
As nossas fixações mentais vão nos colocando em ambiente correlato com o que predomina no nosso pensamento na realidade extrafísica, na qual não temos mais o verdadeiro anteparo do corpo físico.
Ainda que nos afirmemos espiritualistas e, do ponto de vista filosófico, não sejamos materialistas, porque estes não creem na vida após a morte, na sobrevivência e existência do Espírito, ainda carregamos em nosso íntimo condicionamentos e atitudes materialistas, que revelam o nosso apego, mais ou menos intenso, aos aspectos da vida material.
Isto é fato, pois, senão já não mais teríamos atitude alguma de traço materialista, sem, contudo, considerar que, de outra maneira, deveríamos ser pródigos e descuidados com os recursos que nos são confiados, também não é isto.
Daí surgem para nós as naturais dificuldades entre abandonar o corpo físico e fazer a transição para a nova realidade que nos chamará um dia, pois é uma fatalidade a que todos estamos sujeitos, sem exceção.
Embora aceitemos tal realidade e conheçamo-la, a abordagem racional desta verdade, conquanto auxilie em parte a encará-la, ela, por si só, não garante, cremos, a tranquilidade e aceitação do momento difícil para a grande maioria de nós seres humanos comuns, na média planetária de realidade de expiação e provas.
Há fatores outros que predominam em nossa mente, entre eles, os de caráter afetivo, por sinal muito fortes, a nossa vida rotineira, acostumados a cumprir nossas atividades diárias, obrigatórias ou facultativas, que nos ocupam e que integram o nosso ir e vir na vida, nossas predileções por ambientes e pessoas, nossos pequenos gostos pessoais que nos propiciam pequenos prazeres, mas que estão ligados à vida na matéria, e que não são danosos a ninguém, aos outros ou a nós.
Os aspectos de ordem afetiva dizem respeito aos que ficaram e com quem convivemos, alguns dos quais guardamos laços afetivos mais estreitos, bem como os que guardamos até certo nível de responsabilidade por laços de consanguinidade.
Naturalmente, quem desencarna tende a pensar naqueles de quem está se separando temporariamente, a olhar para trás e, quando nota que já não mais pode auxiliar como antes, uma vez que não encontra mais materialmente entre eles, pode descambar para o desespero, exacerbando as dores íntimas e dificultando a sua passagem à nova realidade que aguarda.
Pode pensar e lamentar em não poder mais voltar como antes, continuando no cuidado dos que ficaram e que lhe são caros.
Este é um fator de natureza afetiva que complica, a depender como é visto e encarado por quem está partindo, mesmo quando se sabe das realidades da desencarnação, por via intelectiva, portanto racional, quando conhece a teoria espírita, não se constituindo, este fator por si só, em agente complicador do momento de transição, mas, sim, a forma como ele é visto, vivido.
Esta forma de pensar predomina na maioria das mentes dos que desencarnam e que tendem a desconsiderar também que, na realidade de desencarnado que está retomando, além de não possuir a evolução espiritual de um Espírito orientador dos encarnados que vêm à sua lembrança com forte conteúdo emocional, a despeito mesmo até do conhecimento espírita, nalguns casos, e que não se encontra em condição de continuar com eles colaborando, pois que as maiores necessidades nessa transição são as suas.
Esquece-se também de que está iniciando os primeiros passos totalmente livre do corpo material abandonado, ingressando de maneira mais permanente no mundo espiritual, após a recente reencarnação concluída, ainda que um dia, mais à frente, irá retomar a vida material por via da reencarnação, e que iniciada a fase da desencarnação está indo adaptar-se ao mundo causal, para depois um dia estar apto a visitar os seus e colaborar, mesmo que timidamente dentro de suas condições evolutivas.
Como também se esquece dos que precederam na mesma viagem que está realizando, outras individualidades com as quais possui laços de afetividade, oriundos ou não laços de sangue, alguns dos quais aguardam na aduana da vida, para o reencontro, o abraço caloroso.
O conhecimento do Espiritismo pode ajudar nessa fase de transição, diminuindo o estado de perturbação do Espírito que está desencarnando, mas mais importante é o bem e a prática do bem e a consciência pura são os que maior influência exercem, questão 165 de O Livro dos Espíritos.
A prática do bem leva, naturalmente, aos poucos, gradativamente, o Espírito a um grau de consciência ampliada da vida e a consequente, e também gradativa, mudança de valores e comportamentos.
A consciência pura, no entanto, cremos, é conquista que se situa bem mais à frente na evolução nossa, na condição que ainda nos encontramos de cristãos não cristianizados, ou se preferir, em processo de cristianização.
Percebemos que o trato do assunto desencarnação demanda aspectos que vão além do conhecimento, que colabora na sua compreensão e no enfrentamento da realidade, sem dúvida, mas que outros ângulos da questão são necessários analisar e a encarar, e a questão afetiva guarda um forte impacto na mente espiritual de todos os que partem, rompendo os laços com o corpo carnal.

Do livro: Novas Reflexões.

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VERSO E REVERSO 2

Anunciou-nos o Instrutor Aurélio que, desta feita, iríamos acompanhar os lances da desencarnação de um Espírito que, na Terra, fora figura proeminente da sociedade, alcançando posição de destaque no cenário do país.
Acompanharíamos a distância os lances que, mais de perto, era atendido por uma equipe espiritual encarregada.
O Instrutor principiou por informar-nos acerca de quem se tratava, esclarecendo com mais pormenores.
Trata-se de um irmão nosso que conquistou posição de relevo no panorama do país. É possuidor de grande inteligência, logrando títulos acadêmicos relevantes, bem como aquinhoou relativa fortuna com a sua inteligência, todavia, mais não fez que servir ao poder, alugando a consciência, fazendo-a dormir, no que constituía o mais acertado a fazer em prol de seu semelhante.
Limitou-se a servir ao poder de maneira absolutamente subserviente. Nunca se ocupou, nas suas cogitações, de outros interesses que não fossem os próprios. Não teve, para com os semelhantes menos felizes, gestos e atitudes de solidariedade. Foi tomado de profunda indiferença por quem não andasse nos mesmos círculos de poder que frequentava. Nem mesmo a perspectiva de vidas que poderiam vir a extinguir-se com as suas atitudes comovia-o.
Nesse diapasão, a fortuna que conquistou, nada mais representa do que migalhas que sobejavam da mesa dos que se serviam de seus préstimos subservientes. Para o mundo, era criatura realizada, feliz, próspera, a que todos almejariam a mesma posição. Para as realidades imortais, é um irmão com gravíssimos comprometimentos, que gastará muitos séculos, a fim de recuperar-se dos erros que cometeu, se não vier a incidir em novos.
Todas estas informações lançavam-nos em muitas cogitações, e o Instrutor não perdia tempo, ajudando-nos a ver a questão de uma outra perspectiva.
Todos nós sabemos que, quando mergulhamos na armadura de carne, podemos dormir um sono de indiferença para os valores espirituais, que podemos vir a apegar-nos aos estreitos valores temporais que se baseiam no egoísmo e seus filhos, como orgulho e vaidade, entre outros, no entanto, criatura nenhuma há na Terra que não lhe cruze o caminho alguma mensagem ou alguém portador de uma mensagem que lhe lembre os valores imperecíveis, mas, dominados pelo imediatismo das coisas fugazes, tendemos a fazer adormecer em nós os valores imortais, afundando-nos em erros e complicando a nossa caminhada evolutiva.
Em seguida, na tela onde era projetada a cena do desencarnante, acompanhávamos os lances.
Ele se debatia, nas suas cogitações pessoais, temia profundamente os instantes seguintes, pois desconhecia, nos seus pensamentos, para onde iria, uma vez que pensava como a maioria da sociedade terrena, e, não obstante não se ocupar de religião alguma, imaginava o inferno das criações teológicas, pois reconhecia, nesses instantes, que não fizera nenhum bem do que poderia ter realizado.
Sim, vivera única e exclusivamente para os seus interesses, sempre. Sua inteligência fora alugada ao poder, e com isso intentou conquistar parcela desse poder, esquecido de que ele passava de mão em mão, e que, por mais que se esforçasse, outros de igual jaez apresentavam-se prontos a também servir nos mesmos moldes que adotara, em substituição aos que, temporariamente, ocupavam os gabinetes do poder.
Fora profunda e intensamente indiferente a todos os outros que não partilhavam a mesma realidade social que a sua. Suas atitudes causaram mesmo a dor, o sofrimento, a desgraça de muitos outros semelhantes seus, e, até mesmo, a morte de alguns poderia ser contabilizada no rol dos seus créditos negativos.
Toda esta angústia era vivida por ele, que estava prestes a adentrar ao mundo espiritual com escassos, quase nenhum título de mérito pessoal, que não o de enganos e erros clamorosos. Era a figura perfeita de um indigente espiritual, não obstante fora, na Terra, um milionário dos bens transitórios, mas dos imperecíveis situava-se aquém da condição de miserabilidade.
Já lhe espreitavam o leito figuras de aspectos assustador, pois, além da multidão a quem causara grandes sofrimentos, os criminosos e seus cúmplices vinham lhe dar as boas vindas.
Iniciados os lances de desligamento do corpo físico, mais se lhe assustava o íntimo, a consciência profunda aguardava-o e temia por demais este doloroso encontro consigo mesmo.
O temor que sentia raiava à loucura.
Não teve tempo nem mesmo de rodopiar sobre os próprios pés.
Mãos vigorosas cercaram-lhe o corpo e, como num brado de vitória, gritaram as vozes dos entes menos felizes:
– Ele é nosso.
O que se passaria a partir dali, desconhecíamos, uma vez que até as entidades que na Terra foram-lhe suas vítimas não conseguiram alcançar seus intentos, pois fora arrebatado pelas hostes criminosas das regiões inferiores.
O Instrutor Aurélio retomou a palavra, ilustrando para nós.
Indescritível será o despertar deste irmão mais equivocado, porque até então encontra-se ainda sob forte desorientação, não entendendo bem onde se encontra, a nova realidade que vive na condição de desencarnado, como também gastará soma de tempo considerável, a fim de expungir, parcialmente, os muitos erros que cometeu quando estava na indumentária de carne, e não é difícil considerar como hipótese que sejam indescritíveis as condições de retorno à carne, pois que, havendo o risco de reincidir nos mesmos equívocos e com a mesma intensidade, melhor lhe será que ela assuma o papel de cárcere, para conter-lhe e evitar novas temíveis quedas.
Não se trata de castigo previsto nas Leis Divinas, mas tão somente a sintonia menos feliz que cultivou com constância, bem como a indiferença que teve para com os valores imperecíveis, destruindo vidas e sonhos, açambarcando valores perecíveis e, em troca, alugou e fez adormecer a sua consciência, assim como esta mesma Lei possui mecanismos de contenção para o Espírito criminoso, à semelhança do que fazem, imperfeitamente, os encarnados na Terra.
Para o mundo é um vencedor. Suas exéquias, entre os encarnados, estão cercadas de louvores e encômios, no entanto, para as realidades imorredouras, não passou de filho desatento, que não buscou, de forma alguma, as recomendações do Pai.
Do livro: Novas Reflexões.

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AMAR E ABORRECER

AMAR E ABORRECER

Anotamos, na Primeira Epístola de João, capítulo 4, versículo 20: “Se alguém diz: Eu amo a Deus, e aborrece a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?”
“O homem é a medida de todas as coisas” já diz o aforismo.
Tendemos, naturalmente, a medir o que nos cerca, como também o que está para além dos nossos sentidos com as referências da vida material e os valores transitórios que temos inventado, e com o Criador, ao longo da História, não tem sido diferente.
Interpretamos o aborrecer a seu irmão, na atitude intencional de causar qualquer sorte de prejuízo ou desconforto, pois que ainda erramos de maneira culposa, sem intenção, como também não estamos ainda livres da forma dolosa, com intenção.
E estas duas situações multiplicam-se nos mais variados quadros e intensidades que podemos vir a adotar como comportamento, em especial quando se trata de alguma forma de revide, que pode traduzir o sentimento de vingança, mais ou menos intenso.
Temos dado característicos humanos a Deus, tomando por base o que vivenciamos na relação uns com os outros, portanto humanizamos o Criador dentro de nossos acanhados sentimentos e atitudes humanos limitados, em lugar de imaginar uma grandeza para além do que a maior das grandezas humanas possa expressar neste planeta.
Temos, por hábito, por vezes, buscar agradar aos outros para granjear alguma espécie de simpatia ou facilidade, atos que podem vir a não ser espontâneos de nossa parte, contudo, não se trata, de outra maneira, em querer com isso fazer apologia do trato rude, por termos de ser autênticos em nossas atitudes, ou para afastar-nos de tal forma de agir, não é isto.
Devemos buscar tratar a todos com, no mínimo, alguma urbanidade, independente dos relacionamentos que estabelecemos uns com outros, quer tenha ou não alguma espécie de retorno benéfico para nós, retorno este que podemos vir a buscar a partir de um dado comportamento que adotamos em relação às demais criaturas que nos cercam, agindo com interesse.
Como, contudo, tendemos a adotar tais comportamentos e como também há uma forte tendência em nós de transferir essas atitudes sociais, antes mentais, para todos os relacionamentos que estabelecemos, e com Deus pode também vir a não ser diferente, e estas atitudes mentais e sociais traduzem uma escala de valores que ainda carregamos conosco.
Temos vivido, ao longo do tempo de várias reencarnações, encarando a Divindade como se comportando tal qual um ser humano terreno, que distribuiria favores e simpatias a partir de pobres agrados humanos.
Passamos a crer que, afirmando amar a Deus, estamos realmente fazendo este movimento de afetividade para com o Criador, quando temos esquecido os que transitaram e transitam pelo nosso caminho nos dois polos da vida, alguns dos quais têm sido de difícil de compreensão e aceitação para nós, tanto quanto também assim somos, nalguns momentos, em relação a muitas das demais criaturas que cruzaram e cruzam o nosso caminho.
A evolução é uma via de mão dupla, e nem sempre transitamos pela via certa da estrada.
De outra maneira, a assertiva de João, em sua Epístola, não deve balizar uma atitude fiscalizadora das atitudes alheias, quando alguém afirmar amar a Deus, e passamos a anotar as suas palavras e condutas, a fim de encontrar o descompasso, a contradição entre aquilo que diz e faz,
Não é assim que deve construir o entendimento das nossas deficiências, mas buscar, cada um em nós mesmos, analisar-nos, sem receio ou temor, em função do que alguém poderia vir a pensar, quando se afirma o amor a Deus, sem receio fundado no olhar que os outros dirigem-nos e, nem tampouco, de fazer tal afirmação.
E o amor, em si, traduz todas as ações positivas que todas as criaturas humanas podemos encetar, desde os gestos mais simples de cortesia, educação e urbanidade, entre outros, não somente os grandes gestos dos grandes Espíritos que alumiam a senda por onde estamos transitando, querendo chegar mais além de nós mesmos, superando-nos.
Não é de difícil compreensão, desta maneira, que a relação que devemos buscar com o Criador deve constituir-se num esforço de autenticidade para com Ele, a partir do conhecimento de nós mesmos.
Como nos situamos dentro da realidade de Espíritos ainda pertencentes à Terceira Ordem, do item 101, de O Livro dos Espíritos, com predominância da matéria sobre o Espírito, e com a presença do egoísmo e seus afiliados, entre eles o orgulho e a vaidade, tanto quanto outros filhos da mesma rama, ainda nos equivocamos nas nossos entendimentos dos conceitos e nas nossas atitudes.
E esta autenticidade deve ser buscada, a fim de, antes de tudo, convencermo-nos, primeiramente, a nós mesmos de que como nos encontramos, sem as fugas para os comportamentos estereotipados, intentando granjear das criaturas reconhecimento do que ainda não possuímos em nós como conquista alcançada, relativamente às outras criaturas que nos observam, pois que o Criador, antes mesmo de alcançarmos o autoconhecimento pleno que ainda não conseguimos, já nos conhece de há muito,
E, na verdade, toda e qualquer conquista de qualquer ordem, moral ou intelectual, patenteia-se de maneira espontânea e natural, sem buscar reconhecimento ou aplauso de quem quer que seja, sem querer chamar a atenção para si, e quando se assume tal postura este comportamento traduz orgulho e vaidade.
Devemos evitar esta forma de atalho, que ainda não guarda conteúdo real em nosso íntimo, mesmo que como busca, crendo-nos que basta afirmar o amor a Deus, tão somente, sem nenhum esforço de consideração alguma pelos que jornadeiam na mesma estrada que nós e que possam constituir-se, para nós, nas mais variadas e difíceis formas de aceitação, tal qual também somos, nalguns momentos, para várias criaturas que cruzamos passos e olhares.
Devemos buscar desapegar das formas verbalistas apenas, sem desconsiderar o esforço de busca da autossuperação silenciosa, crendo que as formas verbalistas, por si só, tenham algum poder mágico de traduzir uma conquista ou procura que não ainda não esteja presente em nosso íntimo, aparentando para os circunstantes uma conquista que ainda não alcançamos, pois que este comportamento traduz-se em mero formalismo verbal e social.
Assim, desta maneira, cada um construirá, dentro de si, a tranquilidade das afirmações que entenda que possa vir a fazer relativamente ao Criador e aos valores imperecíveis da vida, que traduzam sentimentos nobres e equilibrados, compreendendo-se, sem a preocupação com o julgamento de outras mentes, intentando buscar a aprovação delas, como forma de lisonja ou aplauso sub-reptício.

Do livro: Novas Reflexões.

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AFINIDADE

A afinidade, define-a o Dicionário Houaiss, como a tendência a combinar-se e a coincidência ou semelhança de gostos, interesses e sentimentos.
Do item 100 ao 113, em O Livro dos Espíritos, é construída uma classificação didática, para fins de entendimento nosso, da escala evolutiva dos Espíritos, esta classificação é feita em classes e ordens, com três ordens e dez classes que se espalham nas três ordens.
Terceira Ordem – Caracteres Gerais – Predominância da matéria sobre o Espírito. Propensão para o mal. Ignorância, orgulho, egoísmo e todas as paixões que lhes são consequentes.
Segunda Ordem – Caracteres Gerais – Predominância do Espírito sobre a matéria; desejo do bem. Suas qualidades e poderes para o bem estão em relação com o grau de adiantamento que hajam alcançado; uns têm a ciência, outros a sabedoria e a bondade.
Quando encarnados, são bondosos e benevolentes com os seus semelhantes. Não os movem o orgulho, nem o egoísmo, ou a ambição. Não experimentam ódio, rancor, inveja ou ciúme e fazem o bem pelo bem.
Primeira Ordem – Caracteres Gerais – Nenhuma influência da matéria. Superioridade intelectual e moral absoluta, com relação aos Espíritos das outras ordens.
Nós, os Espíritos que transitamos ainda na realidade de expiações, e estas representam resgates a que somos compelidos por infringência às Leis Divinas, enquadramos na Terceira Ordem, cuja características gerais são assinaladas no item 101 de O Livro dos Espíritos e descritas anteriormente.
A propensão para o mal, que é um estado de ignorância, caracteriza-se não só pelo desconhecimento, no sentido de não ter tido notícia das verdades, como também de, não obstante saber desses preceitos, não querer buscar praticá-las, ou ainda não conseguir praticá-las integralmente, pelo fato de a evolução ser gradual e lenta, assim como pela predominância do egoísmo na personalidade do Espírito que estagia dentro de tal realidade.
Como decorrência do descrito anteriormente, nascem os equívocos e as infringências dos ordenamentos humanos e Divinos, que geram compromissos de reajuste perante a Lei Divina, os resgates.
O resgate pode dar-se tanto pelo sofrimento a que somos submetidos, vivenciando situações idênticas a que submetemos outras criaturas, a fim de criarmos em nós a consciência do que foi vivenciado em quem ferimos outrora e, consequentemente, mudarmos a nossa noção acerca dos valores da vida que priorizamos. “Perdeste porque descuraste, enquanto possuías, o de que agora tens necessidade. A invigilância levou-te ao abuso e delinquiste” […], assinala para nós um ensinamento, Joanna de Ângelis, na psicografia de Divaldo Pereira Franco, no Livro Viver e Amar, na mensagem intitulada Carma de Solidão.
Ele também pode referir-se à atual existência, porque pode ser imediato em relação ao ato menos feliz, ou noutras existências, como ainda também pode dar-se pela ação no bem, a fim de atenuar e liberar o que realizamos de maneira equivocada, como grafa, mais uma vez, o Espírito Joanna de Ângelis, pela psicografia de Divaldo Pereira Franco, “O que ora faças no bem, atenuará, liberará o que realizaste equivocadamente” […], do mesmo livro e da mesma mensagem.
Dentro desse panorama da realidade evolutiva, nascem naturalmente as afinidades, as simpatias, as aproximações entre os diversos Espíritos dessas Ordens.
Assim é que temos afinidades com os Espíritos que estagiam na mesma ordem que nós, ainda que tenhamos por meta alçar voos mais altos na evolução intelecto-moral situamo-nos próximos dos que possuem características semelhantes às nossas, contando, como sempre foi, com o auxílio dos mais evoluídos que estão em patamares de realidades, por vezes, muito acima das nossas, dos quais recebemos a solidariedade das atitudes que ajudam no nosso progresso, mas com os quais ainda não temos afinidade, pelo que se depreende por não termos semelhanças de realidade interior com eles atualmente.
Entre nós, os Espíritos da Terceira Ordem, os quadros de afinidade de gostos, tendências, pontos de vista, interesses, sentimentos, a visão de mundo, nalgumas situações podem afastar-nos mutuamente uns dos outros, nos mais diferentes ambientes por onde transitamos, quiçá não ocorra em todos, sem exceção.
Desta situação de afastamento, por não haver afinidade, podem decorrer até mesmo situações de antipatia, mais ou menos intensa, com quadros de realidade que podem complicar mesmo os ambientes de convivência entre nós, gerando até mesmo a ausência de urbanidade no trato com quem não, além de não termos afinidade, originando-se essa antipatia do realce de aspectos menos positivos da personalidade do outro que se situa em nosso caminho, esquecidos que também portamos traços em nossa personalidade que não agradam a alguns dos que nos cercam.
Esta situação, antes descrita, pode ocorrer mesmo nos grupo da mais variada natureza e perseguem objetivos comuns, havendo alguma aproximação com algumas ideias básicas que unem os seres no conjunto das ações, mas que se afastam por conta do personalismo inferior que tende a assaltar-nos a personalidade, daí decorrendo situações que causam estranheza a quem nos vê mais de longe e observar-nos essas contradições dentro do mesmo grupo.
Diferentemente de nós, os que se situam em quadros de evolução superiores à nossa, em termos da Escala Espírita, que já galgaram a realidade predominância do Espírito sobre a matéria, ainda que não tenham para conosco afinidade, não nos são indiferentes ou distanciam-se de nós, à semelhança do que costumamos fazer uns com os outros, e O Livro dos Espíritos na questão 980 vem esclarecer esta realidade dos mais evoluídos:
980. O laço de simpatia que une os Espíritos da mesma ordem constitui para eles uma fonte de felicidade?
“Os Espíritos entre os quais há recíproca simpatia para o bem encontram na sua união um dos maiores gozos, visto que não receiam vê-la turbada pelo egoísmo. Formam, no mundo inteiramente espiritual, famílias pela identidade de sentimentos, consistindo nisto a felicidade espiritual, do mesmo modo que no vosso mundo vos grupais em categorias e experimentais certo prazer quando vos achais reunidos. Na afeição pura e sincera que cada um vota aos outros e de que é por sua vez objeto, têm eles um manancial de felicidade, porquanto lá não há falsos amigos, nem hipócritas.”
Observemos que, na recíproca simpatia, não há o receio de que ela se turbe pelo egoísmo, característica que ainda carregamos em nós, portanto, desta maneira os Espíritos que se situam dentro da realidade descrita na questão 980 de O Livro dos Espíritos já superaram a fase do egoísmo, pelo qual ainda transitaremos algum tempo que não temos como prever ou mensurar, pois dependerá de como enfrentaremos as nossas expiações e provas, superando-as de forma paulatina.
Decorre para nós a realidade de que tendemos, naturalmente, a criar afinidade com os Espíritos encarnados e desencarnados que possuem semelhança de gostos, sentimentos, atitudes, visão de mundo, e que temos dificuldade em aceitar o outro que não se situa na faixa de nossas preferências, e com os mais evoluídos que nós, os que se encontram da Segunda Ordem para adiante, ainda não temos afinidade com eles, mesmo que, timidamente, estejamos no caminho de algum bem, mas que eles, ao contrário de como nos relacionamos entre nós mesmos, os Espíritos da Terceira Ordem, não têm para conosco o distanciamento ou mesmo a indiferença que temos por hábito cultuar, quando não carregamos afinidades com que se apresenta diante de nós.
Do livro: Novas Reflexões.

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FARISAÍSMO

Jesus cita, em algumas passagens dos Evangelhos, a presença dos Fariseus, como exemplos de comportamentos negativos, pois primavam pela atitude orgulhosa entre o povo, aparentando virtudes que não possuíam, vestindo-se do mais puro linho e orando em voz alta nas ruas.
Estas como outras características negativas predominavam no seio do grupo, como também havia muitos que eram zelosos cuidadores das tradições mosaicas, guardando uma fé sincera, e havia, da mesma maneira, os exigentes em todas os ângulos da Lei Mosaica, que seguiam Jesus de perto, para flagrá-lo em desacordo com esses ditames e levá-lo a um julgamento no Sinédrio.
Alguns exemplos positivos que ficaram registrados que podemos citar são, Nicodemos que procura Jesus no silêncio da noite para uma dúvida, Gamaliel, preceptor de Saulo de Tarso, posteriormente Paulo de Tarso, ao converter-se ao movimento do Cristianismo primitivo, e este último, antes zeloso e profundo mantenedor das tradições da Leia Antiga e que se transformou em um Apóstolo, divulgador do Cristianismo entre os gentios, os que não conheciam as tradições judaicas.
Do registro histórico de comportamento negativo, intentando uma aparência de virtudes que não possui no seu íntimo, ou nem sequer dá valor a ela, o termo farisaísmo passou a representar esta ideia, uma falsa aparência de virtude, constituindo-se em verdadeira ofensa denominar alguém, nos dias de hoje, com o epíteto de fariseu.
O Farisaísmo, como seita antiga, que Jesus conheceu de perto passou, não existe mais, no entanto as características de comportamentos semelhantes não estão extintas no comportamento humano dos movimentos religiosos das mais variadas correntes de pensamento.
Isto porque, até hoje, ainda não conseguimos desvincular a ideia do Criador das vinculações com os valores humanos transitórios, tendemos a trazer para nós uma imagem de Deus que ainda se comporta conforme os nossos valores acanhados e restritos, a partir de interpretações literais dos textos bíblicos ou até mesmo de obras espíritas.
Tendemos a acreditar, por exemplo, que o Criador precisa ser agradado, como fazemos, às vezes, uns com os outros, que servir a Deus é uma relação semelhante a de empregador-empregado, cumprir tarefas e receber um salário no final da jornada, que no caso é o fim da vida física.
Queremos criar atalhos na evolução, apresentando-nos zelosos cumpridores das tarefas, e estas mesmo quando realizamos dentro do que podemos hoje fazer também é positiva, contudo, devemos afastar-nos do pensamento e do comportamento orgulhoso nela.
Afirmamos que amamos a Deus, esquecidos de que nos próprios textos bíblicos encontramos passagens que nos dão o tom de uma realidade bem diversa do que imaginamos, em relação ao como podemos ver-nos ou pensar acerca de nós mesmos, e extraída da Bíblia de Promessas, Letras Gigantes, Junta de Educação Religiosa e Publicações, Imprensa Bíblica, “Se alguém diz: Eu amo a Deus, e aborrece a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?”
Não se segue daí, que nenhum de nós não possa fazer tal afirmação em relação ao Criador ou mesmo que passaremos a anotar a quem diz e como se comporta, para encontrar ou não ressonância no comportamento alheio do que afirma em suas preces e como vive o dia a dia, não é isto.
É uma reflexão individual para nós mesmos, sem exceção, e considerar também que o verbo aborrece refere-se à intencionalidade da ação, a vontade livre, clara, definida e intencional em causar qualquer sorte de mal estar ou prejuízo a quem quer que seja, até mesmo o sentimento de desprezo e desconsideração por quem quer que seja, mesmo o estranho que nos cruza o caminho, revela-nos dentro desse quadro de contradição.
Afirmamos, anteriormente, que ainda que como seita o Farisaísmo deixou de existir, os comportamentos ainda não, nem mesmo no seio dos movimentos humanos, inclusive os de natureza religiosa.
No Livro Vinha de Luz, editado pela Federação Espírita Brasileira, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, Emmanuel assinala da mensagem de número 54, intitulada Fariseus.
Entre outras características atuais indica a presença, no comportamento humano, da presunção, do dogmatismo exclusivo, com a ideia de ser uma criatura privilegiada das Forças Divinas, informando que o orgulhoso descendente dos Fariseus de Jerusalém ainda vive e respira entre nós, acreditando-se herdeiro único, apreciando tudo sob a ótica de seu orgulho, tenta torcer as próprias leis universais, em função de seus pontos de vista, apresentando-se ao serviço como crente orgulhoso, tomado pelo individualismo, sentindo-se detentor de considerações especiais, bem como informa que exigências farisaicas são perigosas moléstias da alma.
Quiçá, em nós, num ou noutro momento não apareçam essas realidades íntimas, mesmo que por pensamentos, ainda que não por atos, e sem considerarmos que, porventura, tenhamos pertencido a essa realidade histórica passada do povo judeu no passado, podemos analisar sob o prisma de manifestação do ego, que, em si, não é uma porção má, prejudicial da nossa personalidade, só causando prejuízo a nós o seu predomínio sobre o nosso dia a dia, pois, a par de ter função importante na organização psicológica da nossa mente, o seu domínio é que nos tem complicado a vida.
Tanto no ontem como no hoje, o comportamento farisaico é traço de predomínio do ego, com exacerbação do orgulho, da vaidade, em comportamentos doentios e muito prejudiciais a nós mesmos e ao conjunto das pessoas que nos cercam, assim como a todas as atividades de quaisquer naturezas que desenvolvemos, em todos os ambientes.
Do livro: Novas Reflexões.

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O MUNDO E NÓS

Uma frase atribuída ao médium mineiro Francisco Cândido Xavier, se não quanto à literalidade, pelos menos quanto à ideia, pode ser encontrada numa passagem de uma de suas biografias: “Aceito o mundo e os homens como eles são, e continuo eu mesmo”.
Quem não conhece a história de vida do médium, poderia aventar hipóteses menos felizes de interpretação do que ele quis transmitir, que estaria sugerindo, entre outras perspectivas, a acomodação.
Longe estamos de julgar-nos habilitados a analisar, em profundidade, seu mundo íntimo, porém aventamos a hipótese de que ele se referia a mirar horizontes de buscas de crescimento interior mais à frente na caminhada, conclusão não tão difícil de chegar conhecendo-lhe a trajetória de vida na última reencarnação, do seu nascimento à sua desencarnação.
O mundo que se lhe apresentou desde cedo foi muito hostil para com ele, ao percebemos a trajetória dos sofrimentos que enfrentou desde a tenra infância, e que, não obstante a mudança do calendário da idade cronológica, outros sofrimentos muito intensos visitaram-no ao longo de sua jornada terrena.
Sofrimentos esses que ele aprendeu a transformar, na medida de sua caminhada pela vida, não obstante todos os sentimentos humanos comuns a todos nós que enfrentou, tristezas, mágoas e as muitas lágrimas que derramou, mas que ele aprendeu a transmutar em lições que lhe transformaram o panorama íntimo de criatura humana e Espírito em evolução que é.
A frase que marca o início deste texto, quando aplicada a nós, guarda nuances de Espíritos presos à faixa da terceira ordem da Escala Espírita, de O Livro dos Espíritos, cuja descrição desta Escala inicia-se no item 100 da obra.
Os seres que somos e que estagiamos na classificação referenciada, guardamos uma característica determinante e peculiar, que é a predominância da matéria sobre o Espírito, ou seja, a realidade de reencarnados tem nos sido difícil de compreender a matéria como meio, em lugar de fim, e por consequência geramos para nós mesmos as expiações, resgates de erros perpetrados contra a Lei, e as provas que fazem parte do rol da realidade de todos os Espíritos que ainda não alcançaram a perfeição relativa, os Espíritos Puros, e constituem-se essas provas, para nós, em testes nas conquistas de autossuperação que precisamos enfrentar.
Das falhas e comprometimentos diante das provas, podem nascer as expiações, ao manifestarem-se, e deixarmo-nos dominar pelo jogo da vida material, centrando em nós mesmos todos os nossos interesses, desconsiderando os demais que nos rodeiam, predominância do egoísmo ainda presente em nós, em maior ou menor intensidade, nalgumas características das deficiências evolutivas que ainda trazemos.
E mesmos nas expiações, quando novamente infringimos os Estatutos Divinos dentro de um resgate pelo qual estamos passando, geram, mais uma vez, agravamento dos compromissos não cumpridos no ontem e no hoje, pois que, ao lado do resgate, poderemos violar essas normas noutros aspectos dentro do conjunto de ações que deveríamos empreender, no trabalho de liberação de nós diante da Lei Divina.
Para onde quer que nos dirijamos acompanham-nos as nossas discretas conquistas e a ausência delas, em todos os ambientes, independente da natureza destes, e daí que nascem os conflitos externos e internos para nós.
Analisando os conflitos externos, portanto os que dizem respeito ao convívio com as demais criaturas, podemos classificá-los os que se originam da divergência de ideias apenas, estes salutares, e os que têm seu nascedouro nas nossas idiossincrasias com a consequente intolerância e, muitas vezes, até mesmo a antipatia para com quem discorda da nossa maneira de ver o mundo, esses últimos, não precisamos nem muitas análises para enquadrá-los como marca das nossas deficiências evolutivas, sendo, desta maneira, desnecessários e sem proveito algum, totalmente inúteis.
Mesmo no seio do movimento espírita, não obstante as leituras, os estudos, as palestras e demais atividades que participamos, carreamos para o ambiente essas nossas deficiências que, por vezes, manifestamos uns aos outros, pois que, em verdade, comparecemos às tarefas na condição de criaturas também necessitadas, ainda que nossas ações sejam de socorro e esclarecimento a encarnados e desencarnados.
Consequentemente as nossas deficiências podem marcar conflitos e desses conflitos podem nascer distanciamento de um para com o outro, quando não antipatias, que redundam mesmo na ausência de urbanidade entre as criaturas, ainda que não haja manifestações agressivas de maneira ostensiva, esta é uma realidade que toda a movimentação de grupos humanos não está indene, nem mesmo os de natureza religiosa, no qual se lê, estuda e medita as verdades do Evangelho, código universal da conduta humana a ser buscada.
A realidade antes descrita, tanto pode partir de nós, como para também para conosco, uma vez que, dentro das realidades evolutivas pelas quais trafegamos nem sempre somos as criaturas que agimos com mais acerto ou sempre acertadamente.
Em todas as nossas análises dos quadros de deficiências evolutivas de toda e qualquer criatura humana, no passado ou hoje, esteja ela distante ou próxima de nós, cabe-nos pensar desta maneira.
Devemos, então, procurar aceitar-nos, sem nos idealizar como criatura pronta e acabada, em termos do processo de cristianização, como também não devemos idealizar o outro que ombreia conosco em todos os ambientes de qualquer natureza pelos quais trafegamos ou mesmo o que se encontra distante de nós e em idêntico ramo de atividade, procurando sempre seguir adiante e buscando inspiração na frase atribuída ao médium mineiro, “Aceito o mundo e os homens como eles são e continuo eu mesmo”.

Do livro: Novas Reflexões.

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